Publicado em Filmes e Séries, John Mayer, Sobre Ser Você

Body and soul, I am a freak!

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Me sentir deslocada é algo que faz parte de mim desde que eu era criança. Desde que eu ouvi a história d’O patinho feio pela primeira vez eu já me identifiquei. Não por me achar feia em si, mas porque sempre me senti, em certa medida, uma estranha no ninho.

Com o passar dos anos eu fui percebendo que o fato de me sentir deslocada na maior parte dos lugares em que frequentava se dava principalmente pelo fato de eu ser uma pessoa tímida. É bem verdade que nas minhas recentes experiências mundo a fora eu acabei descobrindo que não sou tão tímida quanto eu pensava, mas, ainda assim, sou bastante tímida.

E essa timidez que me acompanha desde sempre acabou fazendo com que eu criasse espaços meus, mundos particulares em que eu pudesse me expressar e me sentir acolhida. E foi nos filmes, nos livros e nas músicas que acabei encontrando, de certa forma, o meu lugar. Ontem eu estava assistindo ‘Matilda’, que é simplesmente um filme perfeito, e fiquei refletindo um pouco mais sobre isso. Felizmente a minha família não era tão caótica quanto a dela, mas às vezes o sentimento de não ser compreendida ainda persiste.

Com o passar do tempo fui percebendo que além do problema da timidez, o que me fazia e ainda me faz sentir deslocada no mundo é o fato de não pertencer a nenhum grupo específico, não ser definitivamente uma coisa só. Que rótulo eu poderia colocar em mim? A que lugar eu pertenço?

Eu amo ler, amo literatura, mas a Universidade não é a minha única casa. Há diversos clássicos da literatura que eu não li e nem sei se vou ler e há milhões de autores que eu nunca ouvi falar. Eu amo música, principalmente Rock, mas eu não sou isso… Ouvi uma música do Led Zeppelin pela primeira vez antes de ontem. Eu adoro sair, adoro festinhas e reuniões mas eu não bebo (nada de álcool, de jeito nenhum) e acho maluquice beber. Então sempre que saio em grupo para determinados lugares eu só faço parte até certo ponto.

De todas as coisas que eu faço e que eu gosto não há nada que me reduza ao ponto de me definir. Assim como algumas poucas pessoas, sou uma freak, uma outsider.

E é por isso que eu passo e preciso mesmo passar certa parte do meu tempo sozinha, porque não há ninguém nesse mundo que me entenda plenamente ou com quem eu me identifique amplamente. E são pouquíssimos os amigos de verdade que eu tenho, pouquíssimas as pessoas que estão do meu lado mesmo quando, como diria John Mayer, ‘I am not myself’. Porque às vezes eu ajo de uma maneira tão diversa do que eu gostaria que eu realmente me sinto outra pessoa.

Eu não queria que esse texto fosse meramente um relato pessoal, eu gostaria que ele tivesse alguma utilidade pra você que está lendo… E essas ideias vieram à minha cabeça porque eu tenho observado ultimamente a quantidade enorme de pessoas no mundo que tem uma vida perfeita, que sabem exatamente quem elas são e o que as definem (palmas pra elas). Eu não tenho outra definição além de freak, que na verdade não define nada.

Se você se encaixa perfeitamente na vida que você tem, na família que você tem e consegue se sentir plenamente parte dos meios sociais onde você vive (igreja, escola/faculdade, grupos de amigos etc), provavelmente esse texto não faz o menor sentido pra você. Então desculpe ter feito você ter lido isso tudo pra nada.

Mas se, por mais que você goste de alguma coisa ou de algum ambiente ou de alguma pessoa, vez ou outra você se pergunta “O que é que eu estou fazendo aqui?”, temos algo em comum.

Ser um freak é se sentir um pouco forasteiro em qualquer lugar, até mesmo naqueles que você conhece a sua vida toda. É perceber que em certos ambientes você é sempre o estranho, o que vê graça no que ninguém vê, o que se emociona com o que ninguém se importa, o que fala coisas que todos acham a maior bobeira do mundo.

Ser um freak é nunca parecer maduro o suficiente, porque sempre alguém vai te dizer que nessa idade você não deveria mais gostar de determinada coisa ou agir daquela forma. O freak é aquela pessoa inacabada, aquela tal metamorfose ambulante que já virou cliché, que muita gente diz que é, mas que na verdade poucos são os que enfrentam a dor de, de tempo em tempo, ter que se isolar um pouco e perder um pouco do seu antigo corpo pra ganhar formas novas.

Ser um freak é muitas vezes parecer que você nasceu na época errada. É querer ter ido em Woodstock mas também achar que você não viveria sem internet.

Acho que nessa vida todo freak tinha que encontrar o seu love-freak pra viver feliz pra sempre. Alguém que também está meio à margem pra ficarem os dois falando de coisas que resto das pessoas normais e bem-resolvidas simplesmente não entenderiam. Eu já conclui que não seria feliz com uma pessoa-padrão e espero um dia poder dizer que encontrei o meu outsider, pra sair por aí sendo só a gente mesmo, ouvindo nossas músicas e tendo nossas crises de riso.

Somos muito mais do que dizem que somos. Aprendi com o “Clube dos Cinco” que as pessoas-padrão sempre vão nos enxergar ‘em termos mais simples e com as definições mais convenientes’, sempre querendo nos dar um rótulo de ‘um cérebro, um atleta, um caso perdido, uma princesa e um criminoso.’ Mas somos muito mais do que isso! E há em todos nós, os que estamos sempre um pouco de fora, o incrível desejo de apenas se sentir completo, mesmo com toda a nossa aparente estranheza.

Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

Um comentário em “Body and soul, I am a freak!

  1. Acho que ninguém se encaixa perfeitamente em um grupo o tempo todo, por mais que digam isso. É muito difícil definir uma pessoa e mais ainda, definir a si mesmo. Eu também nunca fui muito adepta à vários amigos, várias festinhas e esse tipo de coisa. Na escola tinha um ou dois amigos que hoje em dia nem conheço mais (a não ser minha primeira melhor amiga :)), mas acho que o momento e o lugar que me senti mais deslocada foi a faculdade. Sei lá, a gente tem aquela imagem de filmes americanos que a faculdade vai ser ótima e tal, e de fato ela é. Mas tem muita coisa que não se encaixa, que eu não me encaixo, e acabo me sentindo muito freak.
    Mas acho que a vida é assim mesmo, com o tempo a gente se acostuma a não se adaptar ou acaba se adaptando.
    Beijos

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