Publicado em Sobre Ser Você

“Cada um vive atrás das grades que carrega consigo”

bandeira_libertas

Eu encontrei a frase que dá título ao post de hoje absolutamente por acaso em um texto de Franz Kafka. Já faz algumas semanas que essa frase que expressa uma imagem tão forte e impactante não sai da minha cabeça e hoje, finalmente, as ideias que começaram a se formar na minha mente resolveram transcorrer pelos meus dedos. Vamos a elas.

É interessante que antes de encontrar essa frase que me ajudou a refletir sobre tanta coisa, eu estava conversando com uma pessoa mais velha (algo que eu estava fazendo cada vez com menos frequência) e me queixava dos traços da minha personalidade que me impedem de viver a minha vida do modo como eu gostaria. Sempre que toco nesse assunto, destaco logo a minha timidez, que sempre me pareceu ser o meu maior problema, mas nessa conversa também falei com ela da minha insegurança e da minha falta de habilidade para começar conversas com pessoas que não conheço. Eu estava pronta para ouvir algo do tipo “ah, mas você pode trabalhar isso e mudar” etc, só que, para a minha maior surpresa eu ouvi “Thaís, você tem uma imagem equivocada de si mesma”.

Aquilo me chocou tanto! Não imaginava que alguém no mundo pudesse me enxergar como uma pessoa sociável e confiante e, sem falsa modéstia, eu confesso que os argumentos que ela usou me levaram a concordar com ela. Por incrível que pareça, eu não sou esse poço de ensimesmamento que eu fico me convencendo que sou. Mas por que, então, eu sou tão dura comigo mesma? Por que me vejo com olhos tão críticos? A frase de Kafka me fez pensar.

Desde que eu me entendo por gente eu repito para mim mesma “sou tímida e por isso não sou boa em fazer amizades”, “sou tímida e por isso as pessoas me acham chata e me excluem”, “sou tímida e por isso não consigo fazer com que as pessoas entendam o que eu quero dizer e o meu ponto de vista sobre as coisas” e por aí vai. A minha timidez é uma das grades que venho carregando comigo para me privar do mundo. Junto com ela, tem também a grade da falta de auto-estima… nunca bonita o suficiente, nunca atraente o suficiente, completamente sem carisma, com um cabelo que não é dos melhores, com um corpo não tão bem acabado e cheia de pensamentos que ainda me fazem levar susto quando algum carinha diz que sou bonita.

Essas duas grandes deram vida a pior grade de todas: a grade da falta de fé em mim mesma. E, pra piorar, de uns tempos pra cá ainda resolvi que sou ingênua em relação às pessoas e por isso estou condenada a ser eternamente feita de boba pelas pessoas de quem eu gostar. Eis aí as minhas grades, a minha pequena prisão particular. E eu aqui pensando que o meu problema era qualquer coisa relacionada a falta de sorte.

Conversando com algumas pessoas depois disso, percebi que o Kafka estava mesmo certo e que esse gradeamento não era exclusividade minha. Se fosse, eu não estaria escrevendo esse texto, não valeria apenas gastar palavras e mais palavras para falar de algo com que ninguém mais pudesse se identificar. Mas… por que é que nós criamos essas grades? Por que escolhemos nos esconder atrás delas? O que nos assusta tanto no mundo lá fora?

“Tememos a liberdade e a responsabilidade. Por isso preferimos sufocar atrás das grades que nós mesmos fabricamos.” Essa é a hipótese do autor e realmente faz sentido, mas eu proponho irmos além. Acho que nós tememos não sermos aceitos e por isso procuramos um ‘lugar seguro’ para nos refugiarmos das críticas correndo na frente e sendo excessivamente críticos com nós mesmos antes de qualquer pessoa. Muitas vezes usamos essas grades como desculpa para as nossas limitações e para as coisas que não temos coragem de fazer/enfrentar. É como se disséssemos “eu não posso passar daqui porque a minha timidez não deixa” ou “não posso amar ninguém porque sou uma pessoa fria”.

Todavia, eu concordo que viver sem grades, viver em liberdade nos dá algumas responsabilidades que às vezes não nos sentimentos fortes o bastante para assumir. Como é difícil sair de um lugar com o qual nos acostumamos, como é difícil se jogar no mundo como tem que ser, sem ter onde segurar quando algo der errado! Pensando sobre isso tudo, vi que eram dessas grades que vinham muitos dos meus pensamentos negativos que comentei em um post da semana passada.

Como seria bom encerrar esse texto dizendo que depois do Kafka serei uma pessoa totalmente confiante e livre e que já me desfiz das minhas grades! Mas algo que também tenho aprendido nesses últimos tempos é que tudo que é feito pra durar leva tempo pra ser construído. Não vai ser hoje nem amanhã que nós seremos pessoas desapegadas dessas afirmações tão cruéis que viemos repetindo para nós mesmos durante tanto tempo. Haverá muito esforço e algum tempo até que nossas grades se dissipem. Mas, seja como for, já é um grande passo saber que estamos precisando soltar as mãos das grades e começar finalmente a serra-las.

Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

Um comentário em ““Cada um vive atrás das grades que carrega consigo”

  1. Há um tempo atrás, também vivia me colocando algumas amarras em mim mesmo. Até perceber que essas amarras eram colocadas com um nó cego. A ilusão de uma limitação não deixava eu perceber que na verdade não havia nenhuma amarra.
    Nós podemos ser livres, mas há uma enorme implicação : sair da zona de conforto, muitas vezes, só se torna confortável depois de alguns sucessos. Mas não saberemos disso, sem antes sair da zona e entrar numa nova “zona”. 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s