Publicado em Ficção

Na poeira do sebo da Rua 5 de Março

sebo

Como não seria perfeito um romance que começasse em uma livraria?!

Lá estaria você, vendo o quê de literatura inglesa havia naquela seção que realmente estava escrito em inglês. Quase nada, como sempre. Muitas adaptações e poucos originais. Não são assim também as pessoas? Quantas são o que essencialmente gostariam de ser e quantas se adaptam para que possam se sentir parte de algo?! Não são realmente as pessoas como os livros? Mas deixemos de comparações e voltemos ao romance, ou antes, aos romances, o da Jane Austen, o que ele procura ou que surgirá entre vocês dois.

Enquanto você estaria procurando por “Sense and Sensibility” , lá estaria ele, com cara de leitor, lindo e charmoso, procurando por algo novo, algum bom livro para ler durante a viagem para Cabo Frio com os pais no próximo fim de semana. Você não conseguiria alcançar a prateleira desejada e então ele, cavalheiro, alto e encantador, pegaria o livro para você. E fazendo valer o famoso jargão do profeta, em retribuição a esta gentileza, você o ajudaria com a escolha de um romance. Sendo ele da Engenharia e você de Letras, a sua sugestão seria mais do que aceita. E estaria aí iniciado um perfeito romance entre vocês.

Perfeito? Talvez não… Talvez seja apenas mais um cliché. A menina de humanas, o rapaz de exatas; ela baixinha e procurando por livros de mocinha e ele fazendo hora dentro da loja. Porque meses depois você descobriria que a história da procura de um livro para ler durante viagem fora pura invenção (talvez a própria viagem também tenha sido). Ele não costuma ler muito, menos ainda no carro.

Não são realmente as pessoas como os livros? Tantas capas bonitas mas com conteúdo bem menos interessantes, enchendo as prateleiras de uma moderna e badalada livraria como esta, enquanto há tanta coisa realmente boa perdida em sebos amofinados!Seria melhor mudar o cenário.

Um romance começado em uma livraria poderia ser sim muito imperfeito, com tanta gente que hoje frequenta livrarias por motivos tão semanticamente distantes da palavra L I V R A R I A. Até porque livraria, em conceito contemporâneo, passou a ser uma loja que vende celulares, computadores, cds, jogos, quadros, brinquedos e possivelmente algum livro. Sendo assim, você poderia acabar topando mesmo com alguém que nem gosta de ler e que talvez nem seja estudante de nada e que foi lá só para comprar um jogo qualquer de videogame ou ainda um Cd da Cláudia Leitte.

Então vamos mudar mudar logo esse cenário. O que se escreveu até aqui não presta. Vamos começar de novo.

Como não seria perfeito um romance que começasse num sebo?! No sebo sim! Seria perfeito! Quem vai ao sebo procura antes qualidade à novidade. Não há nada de novo debaixo do céu, não há nada de novo nas prateleiras de um sebo. Muitos vão ao sebo crendo que só lá encontrarão algo raro, quase extinto ou que já não se publica e que só vão conseguir ter acesso caso alguém, acometido de qualquer coisa que envolva loucura, um dia tenha se desfeito de uma preciosidade.

Não são realmente as pessoas como os livros? Algumas vivem anos com alguém que, em certo momento, não lhes deu o devido valor e as descartou. Então passam a viver na poeira do sebo da Rua 5 de Março até serem encontradas por alguém que por longo tempo procurou por elas, e que há de quere-las com toda vontade, mesmo sabendo que o passado lhes deixou infinitas manchas e rasuras. Há de cuidar para não causar mais marcas.

Um romance que começasse em um sebo teria mais chance de envolver duas pessoas de humanas e talvez nenhuma delas fosse linda. E talvez teriam praticamente a mesma altura. E talvez os dois gostassem de Agatha Christie. Ele teria um cabelo grande e bagunçado e barba por fazer e não precisaria das suas dicas de literatura. Seria mais uma troca de figurinhas.

Mas, talvez, ‘romance perfeito’ seja uma hipérbole da minha parte, porque se as pessoas realmente são como os livros, logo não são perfeitas. Ainda quando lemos os clássicos, inquietos como somos, não conseguimos achá-los perfeitos (conheço muita gente que gostaria de poder ter dado algumas dicas ao Charles Dickens).

Os romances nunca são perfeitos porque as pessoas também não são. E na verdade não importa muito se o dito romance começou numa livraria, num sebo ou numa biblioteca.
Aaaah! Mas como não seria perfeito um romance que começasse em uma biblioteca?!

O que se escreveu até aqui não presta. Vamos começar de novo.

Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

2 comentários em “Na poeira do sebo da Rua 5 de Março

  1. Romances foram feitos pra não serem perfeitos. Perfeição não existe. Romance talvez não.
    O comentário que escrevi até aqui não presta. Vou começar de novo.
    A perfeição existe até mesmo com todas as imperfeições. Pois a perfeição é algo bem subjetivo. Algo perfeito pra você é imperfeito para outrem. E assim como os romances, podem ser perfeitos mesmo que não haja romance. 😉

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