Publicado em Ficção

Papel, Caneta e Palavra – Capítulo I

Nota: Para ‘ ***** ’ , leia-se qualquer nome masculino com cinco letras, sendo três consoantes e duas vogais. Os meus preferidos são André, Pedro, Bruno e Lucas, mas fique à vontade. Boa Leitura.

Se tivesse um jeito fácil de dizer ‘eu te amo’ a quem amamos, mesmo sabendo que a pessoa em questão não nos corresponde, não existiriam poemas de amor.
Os apaixonados só se debruçam sobre seus cadernos para escrever sobre o amor porque não podem estar debruçados sobre o colo da pessoa amada.

Aos que amam e não são amados, sobra o consolo do papel amigo, que estará sempre lá para receber suas súplicas surdas e a sua mágoa que parecem não ter fim.
Tudo o que você sente e não pode dizer de outra forma, está à disposição do poema, esse agrupamento de versos que vai aos poucos construindo um abrigo solidário para você se refugiar da solidão.
E os versos são esse pulsar desesperado, acelerado, de quem sente o mundo na garganta mas sabe que não pode dar voz a ele a não ser pela palavra escrita.

A caneta precisa estar sempre lá, lembre-se de carregá-la para onde for. A caneta é a porta-voz do grito que você é impedido de dar. É ela quem fará a mística conexão entre a palavra e o papel. E são os três, o papel, a caneta e a palavra, a santíssima trindade daquele que ama sozinho.

Os versos que ***** começou a escrever hoje foram mais sofridos do que os de um mês atrás, quando sua alma o fez saber que ele a amava. Isso porque há duas semanas sua consciência o fez saber que não era e nem seria amado pela menina do sorriso bonito.

O primeiro poema era sobre como ela é incrível, era todo sobre ela, ou talvez um pouco sobre os dois. Porque depois de passar semanas escrevendo o nome dela em todas as superfícies possíveis, ele acabou por descobrir uma graciosa coincidência que resolveu usar nos versos de abertura:

Querida, os nossos nomes
Cinco letras têm
Ambos com três consoantes
E duas vogais também

Tão belo quanto seus lábios
É o sorriso que eles contêm

blá blá blá

O poema de hoje, porém, tinha uma cor acinzentada e começava neste tom:

É triste amar quem não nos pode amar de volta
Porque já entregou a outro o coração;
Amar assim, é um grito mudo e sem resposta
É só melancolia, é só dor, é só solidão.

Se não fosse a poesia,  ***** estaria perdido. Todos os apaixonados também estariam.
Sem a segurança do verso e desse castelo de papel que ele nos ajuda a construir na hora da tempestade, o que seria de nós? É certo que o papel é frágil, assim como é frágil o coração de quem ama e também é certo que se destrói facilmente já com as primeiras gotas de chuva, mas já é um conforto saber que não estamos sós em meio a ela. Dos nossos olhos escorrem as lágrimas sofridas, da folha escorre a tinta preta da caneta amiga.

Papel, caneta e palavra, tríade sagrada, abrigo que não se pode encontrar no peito da pessoa amada.

Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

2 comentários em “Papel, Caneta e Palavra – Capítulo I

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