Publicado em Sobre Escrever

A Inspiração é uma força gravitacional

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Meu quarto ^_^

Eu não sei muita coisa de física, mas tenho a impressão de que, pelo menos no meu caso, a Inspiração e o Sono são duas forças opostas.

Chego em casa tarde da noite, faço um carinho no meu gato, tomo um banho, como alguma coisa e eis que surge então o meu primeiro dilema: dormir ou ficar trocando mensagens com meus amigos? Neste primeiro confronto em todas as vezes ganha a segunda opção. E sigo conversando noite a dentro até que todos estejam dormindo e eu fique sozinha no reino outra vez.

Round 2: ir dormir ou ler alguma coisa? Bem ao lado da minha cama fica a minha estante, dividida em cinco prateleiras. Em quatro delas os meus livros ficam separados por categorias que geralmente tem a ver com a origem da produção literária, literatura brasileira, portuguesa, inglesa, francesa, norte-americana e por aí vai.

Sendo eu uma compradora compulsiva de livros, sempre tenho ali algum livro novinho me esperando para ser explorado. Daí eu penso nos meus professores do mestrado, na quantidade de coisas que eles já leram e no quanto eu ainda não li nada nessa vida… Penso no quanto eu ainda preciso ler. Penso, penso, penso e a segunda opção acaba ganhando de novo.

Como eu costumo receber sempre boas sugestões a respeito de que livros comprar, é comum que eu me depare a esta altura da madrugada com algo genial. Por ‘esta altura da madrugada’ leia-se algo em torno de 3h ou 4h da manhã. É bem nesse momento que coisas estranhas começam a me acontecer.

Os meus olhos começam a querer fechar-se contra a minha vontade, a cabeça começa a pesar e então eu me dou conta de que o meu corpo já não está mais suportando estar ativo e que precisa entrar em repouso. Eu pego um dos marcadores da minha coleção, o coloco na página em que parei, fecho o livro e o ponho na mesa que fica à direita da minha cama, junto com alguns outros que estão com a leitura por terminar. Apago a luz, pego a coberta, deito-me com o abdomem para cima e minhas mãos ficam inquietas sobre ele. Logo me viro para um lado, então para o outro, me cubro, me descubro e logo descubro que começou a homérica luta entre as duas forças que mencionei no início. Inspiração x Sono: A batalha final.

A minha experiência já me fez ver que essas duas forças são realmente poderosas, nenhuma nunca quer ceder e eu sempre fico tentando não reagir a nenhuma delas. É impossível! O empate não é uma opção, elas não entram em acordo, é preciso que haja apenas uma vencedora.

O meu cérebro me orienta a dormir, minha consciência me convence de que é o melhor a se fazer, afinal em poucas horas eu precisarei estar de pé outra vez para mais um dia cheio e meu corpo vai precisar estar descansado. ‘Bobagem!’ , me diz a musa ao ouvido, “Você deve escrever!”.

Eu não mencionei, mas na quinta divisão da minha estante ficam os meus cadernos. São meu confessionário, minha fonte dos desejos, são o palco em que eu atuo. Nos meus cadernos eu escrevo tudo o que acontece ao redor de mim, coisas que são só minhas e também muitas das coisas que depois eu venho postar aqui. E tão logo a Inspiração começa a exercer sua força sobre mim, eles começam a me encarar dizendo “Vamos, escolha logo um de nós e comece a escrever!”. Finalmente eu me rendo a esses doces apelos, nada de dormir (mais uma vez).

Depois de pensar bastante sobre isso tudo e de conversar com meu amigo quase-físico, conclui que a força do Sono é uma força de resistência, enquanto a força da Inspiração é uma força gravitacional. O Sono vai tentando parar o meu corpo mas a Inspiração me puxa com toda a sua intensidade, quer me fazer descer ao papel de todo jeito. E a massa do caderno, infinitamente maior do que a da minha modesta mão direita, acaba por atraí-la até às suas folhas sem chance de fuga.

E ao cabo de algumas horas sai o texto pronto. Às vezes conto, às vezes poema, às vezes uma reflexão qualquer. E é geralmente assim que o meu dia nasce feliz, quando o mundo inteiro acorda e eu finalmente vou dormir depois de ter cumprido a minha missão. Porque escrever é só o que eu sei fazer, e acho que é a melhor contribuição que eu posso dar ao mundo. E não me importa que eu tenha que viver esse embate de forças opostas por quase todas as minhas noites, contanto que a força resultante dessa batalha seja sempre um texto cheio de sinceridade e poesia.

Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

4 comentários em “A Inspiração é uma força gravitacional

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