Publicado em Ficção

Rotina – Thaís Bartolomeu

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Maurício era casado com ela, mas não a amava. Pra falar a verdade ele nem sequer queria mais tê-la por perto. Acordava ao lado dela todo dia e perguntava aos céus “Oh, Deus! Por quê?”. Já fazia quase 10 anos que ele estava naquela situação, e olha que nem era velho, contava apenas 31 anos recém-feitos. Mas apesar de ainda ser jovem (oh, como dói esse ‘ainda’), estava irremediavelmente casado com a Rotina.

Ela era uma esposa mandona, dizia que horas ele devia acordar, o que vestir, que papéis assinar no trabalho, onde almoçar, o que comer e que horas estar em casa novamente. E como se isso tudo ainda fosse pouco, a Rotina ainda era muito ciumenta, não suportava que ele escapasse o mínimo que fosse do seu domínio. Eram sempre as mesmas cores de roupa, sempre o mesmo trajeto de carro, sempre os mesmos amigos, sempre tudo de sempre.

Ele já estava cansado de tudo aquilo, eram 10 anos de uma vida conjugal sem amor. De fato, Rotina e Amor não combinam. De segunda à sábado era o trabalho e no domingo era dormir até tarde, assistir o futebol e dormir novamente. A Rotina sempre foi controladora: “É isso e ponto final!”.

Se Maurício ao menos soubesse por que disse o fatídico ‘Sim’, se soubesse como poderia se divorciar dela… Mas ele já estava tão acostumado com a sua Rotina que morria de medo de já não conseguir mais se virar sem ela. Já fazia algum tempo, porém, que, enquanto ela roncava do seu lado toda noite, ele maquinava planos de livrar-se da indesejável esposa de uma vez por todas.

E foi numa típica tarde de quarta-feira que a sorte sorriu para Maurício, dando-lhe a oportunidade que ele tanto esperava. Enquanto via o mundo lá fora passar como uma miragem diante de seus olhos, restritos pelos limites de sua janela de escritório, uma notícia chega de repente: “O prédio está com problemas na parte elétrica e há risco de curto-circuito, todos temos que sair imediatamente.”

Ainda faltavam 2 horas para o final do expediente. “Serão duas horas só minhas! Duas horas que ficarei longe dela!”. Aquele poderia ser o princípio da liberdade com a qual Maurício sonhava há tempos. Ele iria sentir novamente o sabor doce de sua adolescência. Aquele imprevisto foi para ele como a aula vaga na escola, em que ele podia sair com os amigos para fazer o que quisesse. E enquanto guardava seus pertences na mochila, preparando-se para a sua nova e incrível vida, Maurício lembrou-se do refrão de uma música que costumava cantar com os amigos naquela época: “Quando você perceber já vai ser tarde demais/ Esqueça os seu problemas, faça o que te satisfaz!*.

E rumo ao seu primeiro rompimento com a Rotina depois de anos submissão, Maurício levando ainda consigo alguns dos hábitos de tantos anos, apertou o botão do elevador e quando este chegou, ele entrou por suas portas animado: “São as portas do mundo se abrindo pra mim!”. Mas quando estas se fecharam, Maurício se deu conta que aquele sorriso da sorte foi na verdade um sorriso irônico e que a música que cantava com os amigos de escola se tornara para ele uma profecia. Era tarde demais.

Em poucos segundos o elevador foi parar do 8º andar na garagem do prédio. O barulho foi tremendo e assustou a todos. Alguns minutos depois lá estavam os bombeiros arrombando a porta do elevador e executando o complicado resgate da vítima fatal. Foi um choque para todos os seus companheiros de repartição e especialmente para sua esposa Rotina, que ainda esperava vê-lo trabalhando muitos anos e depois aposentado, vivendo de remédios e da boa vontade dos filhos que ainda teriam.

E assim saiu em uma pequena nota de um jornal sem importância na manhã seguinte:
Falha elétrica em prédio antigo no centro da cidade ocasiona curto-circuito e elevador cai deixando um morto. Maurício Oliveira tinha 31 anos e há 10 anos trabalhava no local. Pessoas que também trabalhavam no edifício afirmaram que o ocorrido foi devido a falta de uma manutenção de rotina.

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* Esses trechos fazem parte da música ‘Rotina’, escrita pelo músico (e meu amigo) Gabriel Ariêh, música que muito me inspirou na composição desta crônica.

Publicado em Sobre a Vida

The past is only the future with the lights on

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Imaginem só se existisse uma máquina de testes do futuro? Afinal, quem é que nunca perdeu pelo menos alguns minutos da vida pensando “como seria se eu tivesse feito tal escolha?” , “como seria se ao invés de sim eu tivesse dito não?” , “como seria o futuro pra mim se eu tivesse agido de forma diferente?”. Pois bem, a máquina funcionaria assim: sempre que você estivesse em dúvida sobre que decisão tomar você poderia testar como seria a consequência de cada uma delas no futuro, assim você nunca tomaria a decisão errada.

Mas querem saber?! Depois de pensar um pouco sobre isso eu dei graças a Deus por não existir tal máquina. O futuro é realmente esse grande enigma que se apresenta diante de nós segundo após segundo, é o incerto, é aquilo que não podemos ter domínio sobre. E acho que a nossa maior dificuldade em tomar certas decisões é o medo de saber se aquilo vai mesmo dar certo, medo de fracassar, medo de estar tomando um caminho que no fim das contas você poderá perceber que não foi o mais satisfatório.

Desde que me mudei recentemente, eu mesma tenho me perguntado se foi a melhor escolha. Me pergunto como estariam sendo as coisas se eu tivesse ficado bem quietinha onde eu estava. Mudar é bom, ver lugar novos, ter acessos a novas experiências como a que eu estou tendo aqui de poder escrever minhas poesias sentindo o vento nos meus cabelos e tendo o mar no fim de tarde pra me inspirar. Mas o que eu ganhei e perdi com essa escolha? O que nós ganhamos e perdemos com cada escolha? ‘Thaís, você tem certeza que não seria bom ter essa máquina de testes do futuro?’ .Tenho sim.

“The past is only the future with the ligths on”. Essa frase incrível que dá título ao texto de hoje foi retirada de uma música que se tornou muito especial para mim, chamada ‘Baby, come on’. E refletindo um pouco sobre ela na noite passada eu me dei conta de que, talvez, o futuro não seja tão enigmático assim se nós tomarmos como base o nosso próprio passado. Como eu já disse aqui algumas outras vezes, todas as experiências que já vivemos é que formam quem nós somos hoje, tanto as boas quanto as ruins.

O passado é somente o futuro com as luzes acessas, ou seja, o futuro é somente o passado com as luzes apagadas. Como então acender as luzes do futuro? Como poder enxergar melhor o caminho à nossa frente? Olhando para o passado e para as nossas experiências não com saudosismo ou arrependimento, mas com papel e caneta na mão pra tomar nota dos nossos erros e acertos. Temos uma perspectiva melhor do futuro quando nos deixamos iluminar por nossas vivências anteriores.

Por mais complicada que a vida pareça ser às vezes, não se pode negar que ela é muito generosa. Sempre nos dá tantas chances! Às vezes sentimos que estamos fazendo tudo errado ou que fizemos a pior besteira da nossa vida tomando uma decisão precipitada. É então que a vida, essa linda, vem e coloca essa lanterna nas nossas mãos que nos permite circular em torno de nós mesmos com mais clareza. Quanto aos erros cometidos, quanto às coisas que nos arrependemos de ter dito e feito? Isso está no passado, você pode querer fugir dele ou aprender com ele (já bem disse o Rafiki). Olhe para o futuro sob um novo foco de luz, use o passado a seu favor. The past is only the future with the lights on.

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Publicado em Sobre Ser Você

Não peça desculpas por ser quem você é

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Uma das coisas mais interessantes sobre a vida é a certeza que todos nós podemos ter de que cada um de nós e uma pessoa exclusiva. Eu poderia também ter dito “única” ou “especial”, mas isso já está muito batido (apesar de não deixar de ser verdade). Mas voltando… Sim, você e eu somos pessoas exclusivas, o que significa dizer que não há mais ninguém nesse mundo que se compare a cada um de nós. E se você por ventura tem aquele melhor amigo super parecido com você vai poder confirmar que, por mais que vocês se pareçam nos mais diversos gostos ou modos de pensar, há ainda assim certas diferenças entre um e outro.

Vamos imaginar aqui que você concordou até agora com tudo que eu disse e esteja aí pensando “Oh, sim! Somos todos pessoas exclusivas, mas… e daí?” Eu mesma me perguntei ‘e daí?’ e me perguntei também qual é a vantagem de reconhecer nossa exclusividade e, principalmente, qual é a vantagem dessa exclusividade toda. Qual é a vantagem em ser eu? Eu: coisa difícil de explicar e mais ainda de definir, se for o caso. Eu: uma pessoa complexa, com gostos absolutamente discrepantes uns dos outros, muitas vezes insegura, muitas vezes overreacting . Qual a vantagem de ser quem eu sou?

Dia desses eu estava em mais uma daquelas situações em que tudo mundo está bebendo, rindo e conversando sobre as coisas engraçadas que estão vendo em seus celulares, tudo isso ao som de música eletrônica, enquanto eu estava lá no meu canto pensando na vida. Nesses momentos sempre surge uma alma bem intencionada querendo puxar assunto e me incluir no grupo e sempre não adianta muita coisa. Acontece que até um tempo atrás, na saída da reuniãozinha (ou seja lá o que tenha sido) eu me desculpava por ser tão quieta e tímida, por ter ficado lá sem quase interagir. Mas dessa vez eu não pedi desculpas por nada e ainda por cima cheguei à uma conclusão interessante.

O problema (se é que há de fato problema) não é nem tanto que eu seja tímida e mais na minha, e sim que o ambiente que a maioria das pessoas gosta não é o que eu mais gosto, e o que a maioria das pessoas costuma fazer pra se divertir não me atrai at all. E isso vale pra tudo na vida, não só nessa situação de festas e tal. Por que eu deveria me desculpar por preferir Machado de Assis à Game of Thrones? Por que eu deveria me desculpar por gostar mais de shows de rock ao invés de barzinho com música sertaneja ao vivo? Por que pedir desculpas por saber tudo das princesas da Disney e nada de Star Wars? Não peça desculpas por ser quem você é.

Seja lá quais forem os seus gostos, seus ídolos, suas preferências,orgulhe-se disso tudo! Afinal, cada filme que você viu e fez questão de memorizar as falas pra ficar citando por aí, cada livro que você leu e te marcou, cada música que é especial pra você, que vira e mexe você está ouvindo no repeat, tudo isso é quem você é! E não importa se essas coisas estão de acordo com as modinhas atuais, até mesmo com a modinha do-contra (leia-se hipster). O que importa é se sentir satisfeito com tudo isso que te construiu, que te faz exclusivo!

E quanto à sua personalidade, se você é tímido, quietinho ou o piadista que faz amizades novas a cada 5 minutos, não deixem que te diminuam ou tentem te fazer parecer ‘errado’ por agir dessa ou daquela forma se você se sente bem assim. Isso já está bem batido, mas eu vou repetir o conselho: Seja você mesmo. E se às vezes você sentir que também não sabe nem quem você é direito (porque comigo, pelo menos, acontece de tempos em tempos), recomendo que você passe um tempinho fazendo as coisas que gosta, se for sair, saia, se for ficar trancado no quarto, fique. Isso irá ajudar!

Nada como se amar, se entender, se aceitar e se respeitar sendo tudo que você é. Isso já é um grande passo para que as demais pessoas (legais) sintam o mesmo em relação a você, independente de qualquer diferença.

Publicado em Poesia

O sorriso mais bonito da cidade

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Com a desculpa de devolver meu capotraste, me ligaste:
‘Você pode ir na praça mais tarde?’
Me arrumei animada e coloquei minha camisa do Renato.
Já estava louca pra te ver de novo, isso é fato!
E não sei se foi o vento suave daquele dia
Que fez aumentar em mim o que eu já sentia.
Pode ter sido ainda o dedilhado que você fez no violão
Ou o tombo que eu quase levei e te fez segurar minha mão
Pode ter sido a sua risada quando me viu rindo também.
Ou serão os teus olhos que me fazem não querer mais ninguém?
Só sei que gostei de ouvir músicas que eu não conhecia
E de ficar até tarde da noite na sua companhia.
Gostei das histórias, das piadas e do açaí com leite em pó;
Gostei quando me disse que era estranho eu estar só.
Não dá pra esquecer da sua mão no meu rosto e seu jeito de me tocar
Como esquecer do que senti quando você se aproximou pra me beijar?
******* , ******* , que saudade vou sentir do seu abraço…
De poder te encontrar e criar um mundo todo num pequeno espaço.