Publicado em Filmes e Séries, Sobre a Vida, Sobre Escrever, Sobre Ser Você

Becoming me

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Eu conheci a Jane Austen quando eu tinha cerca de 16 anos e, explorando a linda biblioteca da minha escola, resolvi começar a ler um livro chamado Orgulho e Preconceito. Pelo título eu achei que o livro trataria de ódios e rancores, tramas de vingança! Mas para a minha surpresa, o livro era um romance belíssimo! Até hoje é um dos livros que mais amo na vida! Como eu aprendi com ele! Como ele é parte de quem eu sou!

Esses dias, dando uma olhada em adaptações da Jane para o cinema, acabei descobrindo que havia um filme sobre a vida dela chamado Becoming Jane, horrivelmente traduzido para o português como Amor e Inocência. Fui assisti-lo e simplesmente… é muito lindo e é muito amor! E eu ressaltei aqui o quanto foi ruim o nome dado ao filme em português porque ele trata fundamentalmente de como a Jane Austen se tornou a Jane Austen, como se tornou a escritora que hoje nós conhecemos e (falando de mim e de minhas amigas) amamos.

E depois de conhecer mais da história de vida dela ao assistir Becoming Jane, depois de saber como ela foi crescendo como escritora a partir das experiências que passou como filha, como irmã, como mulher naquela época e principalmente como leitora, eu fiquei pensando em como é que eu me tornei essa pessoinha peculiar e projeto de escritora que sou hoje.

Fiquei lembrando da música Capitão Gancho, da Clarice Falcão, em que ela fala de diversas coisas aleatórias de sua vida que, segundo ela, são responsáveis por ela ser quem é. E acho que é bem assim mesmo, não são só os grandes acontecimentos que nos formam. Cada pequena coisa, palavra dita ou ouvida, carinho recebido ou negado, tudo que até hoje já nos aconteceu foi direcionando os nossos sonhos e as nossas escolhas. E a maneira como nós lidamos com tudo de bom e ruim que acontece ao nosso redor vai aos poucos formando o nosso caráter.

E mais uma vez eu retomo aqui a importância das decepções na nossa vida pra que a gente cresça, pra que a gente descubra a nossa força e a nossa capacidade de se levantar do chão.  E ainda bem que todos os meus amores de adolescência foram platônicos! Pois assim eu fui pesquisar o que queria dizer platônico e assim conheci Platão. E ainda bem porque, por conta disso e da minha mania de ficar escrevendo o nome dos meninos por quem me apaixonava em todo lugar, comecei a rascunhar poemas onde eu repetia e repetia os seus nomes infinitamente.

Talvez se a Jane Austen não tivesse amado tanto o Thomas, ela não tivesse criado um homem tão perfeito como o Darcy. E talvez, se ela tivesse se casado com ele, ela teria visto que ele não era tão tudo de bom assim, daí o Darcy e seus outros protagonistas talvez não seriam tão idealizadamente perfeitos. Vai saber! Mas o que eu quero dizer é: ainda bem que as coisas são como são! Eu aprendi com Luís Fernando Veríssimo que a versão real da nossa vida, aquela que de fato vivemos, é sempre a melhor de todas porque é a única de fato possível. O restante é fantasia.

E por mais que a gente, vez ou outra, se pergunte “E se eu tivesse aceitado aquele emprego?” , “E se eu tivesse entrado para aquela faculdade?” , “E se eu não tivesse terminado com aquele cara?” , o fato é que a vida é como é, e escolhas são sempre difíceis e sempre significam abrir mão de uma outra possibilidade.

Mas se você por acaso se sente insatisfeito com quem você se tornou hoje, é como minha avó semopre diz: ‘enquanto há vida, há esperança’. Busque para você o que ainda te falta e não abra mão do privilégio de ser uma pessoa única para ser só mais uma igual a tantas outras!

Eu me sinto feliz demais por ter me tornado quem sou hoje, com meus gostos, minhas paixões e meus sonhos, por mais que às vezes eu me sinta meio incompreendida e até solitária. Ainda bem que minha vida foi dessa forma e não de outra! Ainda bem que em uma manhã de 2007 eu resolvi ler Orgulho e Preconceito e não outra coisa qualquer. Porque, parafraseando a Clarice Falcão, se não fosse a Jane Austen não seria eu! ❤

Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

19 comentários em “Becoming me

  1. Devo ser sincero para com meus sentimentos quando leio vossa colocação. De fato cada experiência por nós vivida torna-se essencial para cada parte de nosso caráter e personalidade. Especialmente nós, que almejamos tanto a vida de escritor. Deveras, Jane foi e ainda é muito a frente de nosso tempo. “Se seus sentimentos ainda são os mesmos de abril passado, entao devo trabalhar para esquecer os meus…”

  2. Estou neste momento a reler Orgulho e Preconceito, desta vez em inglês, e vi novamente (talvez pela 50a vez… hehe) a adaptação de 2005 com a Keira e o Mathew e devo dizer que dei por mim a pensar o mesmo que tu! Ainda bem que a Jane Austen entrou nas nossas vidas.
    Só gostava de lhe poder agradecer e que ela soubesse o quão amados são as suas obras hoje.
    Sem a Jane… realmente não seríamos nós!

  3. Minha primeira visita. Adorei o texto, sua escrita é leve e inteligente. Nunca li Jane Austen só vi o filme Orgulho e Preconceito. Desde então sei que preciso ler. Os livros dela estão na minha lista de desejos. Minha alma deve estar se preparando. Parabéns, Thaís! Ganhou mais uma seguidora! 🙂

    1. Simone, fiquei imensamente feliz com seu comentário! Que bom que minhas palavras foram tão bem recebidas por você! Obrigada de coração!!!
      E sei que quando você começar a ler a Jane irá se apaixonar, porque ela é incrível! ❤

  4. Lindo seu texto! Eu não conhecia a Jane Austen, mas suas palavras despertaram em mim o desejo de conhecê-la. Gostei muito da forma como abordou a história e da sutileza de suas palavras, você nos envole e nos deixa preso ao seu texto sem ao menos cogitar em sair antes que tenha terminado a leitura, parabéns!

  5. Olá, Thaís. Tudo bem?
    Não conhecia esse filme, mas já vou caçar por aqui. Gosto muito da escrita e das adaptações para o cinema dos clássicos da Jane. Como já disse, não tinha conhecimento sobre esse filme que menciona como a Jane se tornou a Jane Austen, mas já tô correndo para conferir. Obrigado pela dica! Belas palavras, é perceptível o amor e carinho que tem pela autora e por sua escrita. Meus parabéns!

  6. Oi Thaís, tudo bem? Conheço e amo Jane Austen, mas tenho um desejo oculto: Eu queria ter conhecido a autora e suas obras muito, muito mais jovem. Sei que cresci desde que a conheci, mas tenho certeza que minha mudança seria muito mais significativa se eu fosse mais nova. Eu amaria redescobrir o mundo pelas mãos (ou melhor, palavras) da Jane. Gostei muito do seu texto! Conhecia o filme, mas fiquei receosa de assistir, mas agora você me deixou curiosa. Obrigada por isso!

  7. Oiii!

    Adorei a análise. Eu, assim como você, acredito que são nossos erros que nos transforma. Eles são tão importantes quanto os acertos e a vida é assim. Gostei muuuuito da sua análise e vou tentar ver esse filme (que teve a tradução péssima mesmos) para entender mais sobre a autora .

    Beijinhos

  8. Aaah, que texto mais lindo! Concordo com você e Veríssimo. Recebemos a melhor vida possível. Tudo que nela acontece é porque assim deve ser e sempre seremos capazes de lidar com isso, por mais difícil que pareça.

    Fiquei bem curiosa para ver o filme

    Beijos

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