Publicado em Curtas de amor

A última flor – Gabriela Paiva

Nunca fui de escrever ,até porque o jornalista era você. Era. Daqui há alguns anos irão ler esse texto e irão achá-lo fofo por se tratar de um melodrama vintage histórico que quiçá renderia um livro campeão de vendas – isso se nessa época em que descobrirem não houver nenhum governo ditatorial que repreenda tudo a seu respeito.

Sinto um pontapé de tristeza ao lembrar que meu pai causou sua morte,creio que uma das maiores dualidades da vida seja se dar conta que uma pessoa que você ama matou outra que você amava.Mas você também,por que diabos foi expressar seu senso de liberdade linguística naquele momento em que se pagava uma língua afiada com um machado afiado?!

Sabe,quando me falavam que você tinha cometido suicídio eu não acreditei. Não acreditei,pois uma afirmação não poderia apagar as lembranças que possuo de você: um sujeito mais alto do que eu duas canetas,de óculos negros que contrastavam com sua pele alva, características das quais davam a você um ar de intelectual, aquele tipo de intelectual que repudia romances chorosos e que só domina a linguagem referencial e argumentativa.

Argh,como eu detestava sua primeira impressão.

Sua segunda e permanente impressão corrobora para eu não ter acreditado no seu suicídio: um molecote tímido que viu nas palavras e nos pseudônimos uma forma de se expressar sem ser notado e que por um erro do destino acabou tornando-se notável através de sua camuflagem; um menino que possuía um pacto de lealdade com a vida ao ponto de soltar um ‘Obrigado Deus!’ a cada gorjeio de um pássaro,o que eu sempre achei meio ‘ falas de senhoras da missa de domingo’.

Nossa última conversa foi antes de você ser preso pelos homens do meu pai, em um rua paralelipada no Rio de Janeiro de 64 em plena ditadura militar e a última frase que me disse foi:

– Nada mais justo:eu dei vida através das minhas palavras, agora chegou a hora de elas me tirarem a vida.

Você se despediu com um derradeiro beijo quente que dias depois seria invadido pela sua gélida pele sem vida e posteriormente minha vista embaçou a ponto da minha última recordação sua ser a de um rosto pálido sendo fagocitado por uma massa verde.

E tudo isso foi em um 12 de junho,um dia dos namorados incomum com apenas um único elemento  em comum: uma rosa, não vermelha com um recado onde você tentaria escrever poemas só para me agradar, mas sim uma branca no seu túmulo,l ugar onde você não estaria se tivesse feito das suas idéias um túmulo também.

Quero te odiar,mas quanto mais te odeio mais te amo.

Não seria esse ódio a essência do amor?

Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

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