Publicado em Curtas de amor

Seu Madruga e o sofá – Thiago Echer

O sofá é um lugar para deitar e pensar na vida, não de dormir! Só falta conseguir dizer isso pra minha namorada, a qual acaba de conquistar – de forma autoritária – o meu lado da cama e decidiu que eu deveria dormir neste móvel amarelo que me daria um belo torcicolo pela manhã. Por qual motivo, razão ou circunstância? Seu Madruga e a Bruxa do 71… Justo na véspera do dia dos namorados.

Era um início de noite comum, estávamos na nossa humilde casa, assistindo a nossa humilde televisão e eu comendo um sanduíche. Mas não importa se você tem duzentos canais ou apenas meia dúzia: sempre acaba assistindo Chaves. Até aí tudo bem, gostávamos da série – mesmo que já tivéssemos decorado o que acontecia em cada episódio. Neste que estávamos assistindo, a Bruxa do 71 dava em cima do pobre do Seu Madruga. Então – de uma forma não tão inesperada, pois ela gostava de conversar com a TV –, minha doçura comentou:

– Como o Seu Madruga pode fugir tanto da Dona Clotilde? Ora, que eles casassem logo.

– Casar pra quê? É uma bobagem se amarrar. – Até agora não sei por que me manifestei. Se deixasse passar, estaria na nossa cama agora.

– “É uma bobagem se amarrar”? É por isto que moramos juntos a sete anos e você nunca me pediu em casamento? – a cara de indignação estava velada, mas sabia que tinha atingido um ponto fraco.

– Calma, amor, não foi isso que eu quis dizer…

O resto da discussão deve ser fácil de imaginar, apenas aqueles velhos clichês: “você não me ama o suficiente”, “isso tudo é uma bobagem”; “desse jeito nunca vamos ter filhos”, “por isso que temos um gato”; et ceteras infindáveis.

Agora estou aqui. Enquanto a Supernanny manda as crianças sentar num cantinho para pensarem, eu fico recluso a este sofá. Bem que ela poderia ter levado isso menos a sério, foi apenas uma simples frase! É culpa minha o Seu madruga não querer a velha bruxa? Eu deveria ter aprendido com o pai do Chris: em uma discussão, a mulher sempre está certa.

Mas, talvez – só talvez –, eu deveria ouvi-la mais, afinal, estamos juntos há algum tempo… No final das contas, a Dona Clotilde não deve ser tão ruim quanto a pintam, veja só: a mulher vive fazendo favores para sua paixão.

Olho para a TV, olho para o teto… Lembra do meu sanduíche? Não fui eu quem fez, nem coloquei num prato, muito menos levei até a sala para eu mesmo – acho que algumas reticências cabem aqui.

Corri até a cozinha, peguei o arame de amarrar o saco de pão, moldei um círculo e corri até o nosso quarto. Quando cheguei, ela estava sentada na cama lendo um livro, me aproximei, ajoelhei-me, olhei praquele rosto com uma espinha na ponta do nariz, praquele cabelo desvairado, pros olhos castanho-escuros. Peguei na sua mão e disse sem pensar (pois deveria?):

– Fabrícia Vieira da Silva, quer casar comigo? – E deixei o meu anel improvisado a poucos centímetros do seu dedo.

A cara de brava foi se esvaindo, tentando ficar, mas foi tomada por um sorriso singelo que se transformou em uma expressão sincera de felicidade.

– Seu bobo, enquanto tem gente terminando o namoro pra não dar presente, você transforma namorada em noiva. Espertinho! – Pegou na gola da minha blusa, me puxou para a cama e me deu um daqueles beijos que não vêm desacompanhados.

Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

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