Publicado em Sobre a Vida, Sobre o Amor

Nós, geração de desapegados

Logo do início desse ano tivemos que lidar com a morte de Zygmunt Bauman, sociólogo contemporâneo que em diversas obras nos falou sobre a liquidez das relações neste século. Mas para entender do que quero falar aqui você não precisa ser leitor de Bauman nem estudioso de sociologia ou antropologia, basta olhar um pouco ao seu redor.

Uma expressão que passou a fazer parte do nosso vocabulário de uns anos pra cá é a tal “desapega”. Isso pode se referir à coisas, sentimentos, pessoas… e o mais curioso é que, em se tratando de desapegar, parece que é tudo igual! É comum vermos no Facebook “grupos de desapego” feitos com o objetivo de vender coisas que já não usamos mais, o que não chega a ser um problema mas é um claro reflexo de uma geração que descarta tudo com muita facilidade.

Até certo tempo atrás era comum (pra quem não era rico) usar roupas com remendos, ter em casa objetos colados com superbonder e manutenções (ainda que provisórias) do tipo. Mas falar disso hoje parece uma loucura, afinal se algo já está ruim ou você já não usa mais é só desapegar, jogar fora ou passar adiante e comprar outro novo.

Mas não quero entrar aqui na questão consumista nem ficar falando do quanto somos levados a querer sempre o novo, até porque, por mais que essa facilidade em se livrar das coisas às vezes espante, nada me assusta mais do que a facilidade com que as pessoas descartam umas as outras.

A modernidade tem dado à tudo um caráter muito efêmero e nós mesmos temos sentido que os dias, meses, anos têm passado rápido demais. A internet (especialmente por causa das redes sociais) nos trouxe a possibilidade de conhecer, interagir, se tornar amigo de muito mais pessoas em um ano do que nossos avós durante a vida inteira. E o que isso gera?

Quando nos deparamos com grupos e páginas imensas no Facebook que (teoricamente) reúnem apenas pessoas com gostos em comum, nos sentimos diante de um universo de possibilidades. “Só aqui nesse grupo tem mais de 10 mil meninas que gostam da mesma música/banda/filme/livro que eu.” E dentro desses microcosmos nós vamos literalmente selecionando e testando pessoas quando estamos em busca de um relacionamento.

Olhamos o perfil de um, vemos o signo, a cidade, a escola que estudou, os amigos que têm, os lugares que costuma ir e mais uma infinidade de coisas que por vezes nos faz sentir que aquela é “a pessoa certa”. E, geralmente, com a mesma rapidez com que nos interessamos pela pessoa, puxamos conversa e até mesmo nos apaixonamos, também descartamos rapidamente se percebermos que “não era bem aquilo”.

E assim o ciclo recomeça: achamos outra pessoa com gostos parecidos, checamos o perfil, começamos a nos apaixonar, nos decepcionamos e descartamos. Afinal, tem tanta gente no mundo… Pra que insistir? Pra que esperar? Pra que me apegar?

Mas será mesmo a gente não se apega? Será que todas essas pessoas entram e saem da nossa vida sem deixar nenhuma marca? E será que nós não a marcamos também?

Gostar ou se apegar (que muitas vezes aparece como sinônimo) é algo inevitável, mas acho que só vale a pena essa filosofia de desapego quando se trata de relacionamentos abusivos. Conhecer alguém é algo que leva tempo (um tempo diferente pra cada pessoa, mas leva), não é algo que acontece de uma hora pra outra. E quando começamos a colecionar esses mini relacionamentos ficamos cada vez mais despreparados para algo profundo e real. Tão profundo e real como são, na verdade, as pessoas.

Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

6 comentários em “Nós, geração de desapegados

  1. Realmente, é verdade. A geração atual está muito presa na prática do desapego, mesmo quando às vezes não é necessário. Acho que o desapego só devia ser colocado em prática para coisas ruins, como relacionamentos abusivos. Agora desapegar coisas que ainda podem ser úteis, pra quê? Tem tantos faça você mesmo pela internet, que dá para reaproveitar muita coisa. E para que simplesmente jogar fora sendo que você pode ajudar o próximo fazendo uma doação, não é mesmo?

    Eu amei esse texto. Aliás, parabéns pelo blog. Lhe desejo muito sucesso.

    Com amor,
    Gabriel.
    Rascunhos de Tom

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