Publicado em Filmes e Séries, Sobre a Vida

Inside World

Uma coisa que me chamou a atenção em alguns dos filmes hollywoodianos recentes foi a presente temática da paternidade. Moonlight , Fences , Collateral Beauty e Captain Fantastic são bons exemplos, mas dentre todos os esses e os demais filmes que inclusive estiveram na última disputa pelo Oscar, Captain Fantastic foi sem dúvida o meu filme preferido!

Quando comecei a assistir o filme, pensei que ele seria parecido com A Vila, no sentido da criação de um lugar fora do mundo real e contemporâneo onde os moradores mais novos do local acreditam ser aquela de fato a realidade e não um lugar inventado. Fiquei muito surpresa e feliz em ver que Ben não privou seus filhos sobre como era o mundo do lado de fora daquele paraíso criado por ele e sua esposa.

O início do filme me deixou encantada ao ver o hábito de leitura que Ben conduzia aos filhos, assim como outras atividades para corpo e mente que eram praticadas regularmente. Durante todo o filme que, aliás, é repleto de diálogo genais, eu pensei diversas vezes “Nossa, como eu adoraria poder fazer algo assim quando eu tiver filhos!”. Todavia, o drama principal que permeava a trama, refletido especialmente na indecisão de Bo, me fez querer pensar com mais clareza sobre o assunto.

Para nós, que assim como Ben, conhecemos o lado de cá, o mundo real e todas as suas malezas, desde o mau hábito mais cotidiano à violência extrema, frequentemente nos vem a consciência de que o mundo parece estar se tornando a cada dia mais um lugar péssimo para se viver. Talvez mais péssimo ainda para se criar os filhos.

Creio que todas as pessoas que planejam ser pais e mães fazem projeções para os filhos com base no que acreditam e no que gostariam que eles se tornassem, seja seguindo o exemplo dos pais ou justamente pela oportunidade de fazer tudo diferente. Mas acontece que apresentar apenas um tipo de realidade aos nossos filhos irá privá-los do conhecimento de uma série de coisas que, querendo ou não, fazem parte do tempo ao qual pertencem.

O final do filme me agradou muito justamente por mostrar a possibilidade de um meio termo, onde as crianças poderiam finalmente optar entre os dois mundos, o filosófico e libertário aprendido em casa e o muitas vezes cruel, tecnológico e capitalista do qual fazemos parte.

Eu sinto que teria um milhão de coisas pra falar sobre esse filme, sobre o quanto ele aponta falhas no nosso sistema escolar de ensino, na relação familiar atual… o quanto nos mostra que às vezes nós é que parecemos bichos não-civilizados, totalmente dependentes da tecnologia pra tudo e insensíveis! Mas parece que o fato de estar pensando muito de uns tempos pra cá sobre a questão da criação de filhos está me levando a uma pergunta insistente: o que queremos que os nossos filhos se tornem? Isolá-los seria a melhor resposta? Ou apenas deixar que vivam e façam tudo como as demais crianças?

Uma das coisas que aprendemos com o filme é que uma vida simples não significa uma vida sem problemas e sem sofrimento, mas uma grande lição que também vou guardar é que não adianta você saber falar 5 idiomas e conhecer todos os grandes clássicos da literatura mundial e não saber se relacionar com o outro, não saber lidar com o que é diferente, com o que é novo. Além do mais, de que serve conhecer tanta coisa se for pra ficar guardada só pra você, sem compartilhar com quem não sabe o que você sabe?

Talvez o que realmente valha a pena no fim das contas é sermos capazes de construir um lindo mundo interior, repleto de tudo que nos encanta mas sabermos transitar entre ele o mundo que nos cerca do lado de fora, aprendendo e compartilhando.

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Autor:

Thaís tem 25 anos, é formada em Letras pela UFF e recentemente concluiu o mestrado em Literatura Brasileira. Adora dar aula e sempre que dá leva alguma música. A Thaís acha o Machado de Assis o escritor mais genial e totalmente incrível de todos os tempos e na música não há outro como John Mayer. Ela sabe fazer um brigadeiro muito bom, mas garante que escrever é o que de fato ela sabe fazer de melhor nessa vida.

5 comentários em “Inside World

  1. Olá
    Nossa penso muito nisso, em como mundo está, e como ele ficará no futuro e com isso o meu medo de que quando eu tenha filhos a vida seja dura demais, com eles. A unica coisa que torço é para que pelo menos um pouco de tudo o que de ruim está acontecendo se dissipe ou pelo menos que nosso mundo seja um lugar mais tolerante e tolerável.
    Lindo post.
    Beijuh

  2. Eu ainda não assisti Captain Fantastic, mas tenho ouvido ótimas críticas, o que já me fez colocá-lo em minha lista de filmes a serem assistidos. Achei bem interessante a a reflexão sobre a paternidade. Adorei o seu post!

  3. Como será que o mundo será no futuro? Será que se os filmes adotarem uma temática com zero intolerancia… conseguiremos viver melhor?
    Às vezes me pego pensando nisso…
    E eu acabei de ler que voce é formada em letras pela UFF ❤
    Bjss

  4. Oi!
    Achei bem interessante esse filme, confesso que ainda não tinha visto falar nada dele.
    As reflexões que ele trás sobre as projeções dos pais para os filhos e os passos que os próprios devem dar por sua escolha são muito importantes, com certeza é algo que quero assistir agora

  5. Eu também já tive vontade de morar em um lugar bem rural com internet lenta pra criar os meninos, mas acho que não existe mãe nem pai tão fantástico que possa abrir mão da sociedade para criar os filhos. Ótimo post!

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