Publicado em Ficção, John Mayer, Poesia, Sobre Música, Sobre o Amor

My dear

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Vem tocar John Mayer pra mim, meu bem
Porque eu gosto de vê-lo mexer com Neon
E vê-lo sorrir com Dear Marie é tão bom!
(Será que gostas do meu sorriso também?)

Vem iluminar minha noite, meu bem
Com os vagalumes que saem do teu violão
E que dançam pra nós a cada canção.
(Será que vai dar tempo pra Stop this train?)

E se você vier ainda hoje, meu bem
Tem aqui um quarto pra gente incendiar
E se escaparemos desse fogo, não sei dizer

Nem sei que efeitos os teus acordes irão ter
Mas certamente a gravidade me fará deitar
(Será que vou acordar no teu colo, meu bem?)

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As aventuras de uma pessoa sem caneta

centro

Esta história é sobre a horrível situação de precisar urgentemente escrever um poema incrível que um vento encantado te soprou aos ouvidos no meio da rua, e se dar conta que você não tem uma mísera caneta.
O celular está descarregado e você não sabe o que fazer pra aquela ideia não sumir.
Você olha pros lados e se vê cercado por uma multidão indiferente. Ninguém vai parar pra ver se tem uma caneta na bolsa e te emprestar.
Além do mais, você tem medo de falar qualquer coisa com alguém e se embolar com os versos.
Nenhuma papelaria por perto, só empresas e mais empresas, prédios e mais prédios. Agora o que fazer?
Eis que o capitalismo , aquele que tanto valoriza o empreendedor e rebaixa o poeta, coloca diante dos seus olhos o seu símbolo máximo como uma possível solução.
E você entra desesperado pelas portas de vidro de uma agência bancária e corre em direção aos envelopes de depósito, e lá bem ao lado deles, está ela, a sua querida amiga, a caneta!!!
E que se danem todos os office boys e demais pessoas ali dentro do banco esperando pra mandar dinheiro para alguém.
Mentalmente você responde a todas elas: ” o meu poema é mais importante que dinheiro, ainda mais porque fala de amor!”
E depois de pôr em ordem cada palavra, cada verso e cada estrofe você sai da agência triunfante com um grupo de pessoas atrasadas te olhando feio e um envelope vazio em mãos.
Ou melhor, vazios não. Com um lindo poema sobre si.

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Rotina – Thaís Bartolomeu

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Maurício era casado com ela, mas não a amava. Pra falar a verdade ele nem sequer queria mais tê-la por perto. Acordava ao lado dela todo dia e perguntava aos céus “Oh, Deus! Por quê?”. Já fazia quase 10 anos que ele estava naquela situação, e olha que nem era velho, contava apenas 31 anos recém-feitos. Mas apesar de ainda ser jovem (oh, como dói esse ‘ainda’), estava irremediavelmente casado com a Rotina.

Ela era uma esposa mandona, dizia que horas ele devia acordar, o que vestir, que papéis assinar no trabalho, onde almoçar, o que comer e que horas estar em casa novamente. E como se isso tudo ainda fosse pouco, a Rotina ainda era muito ciumenta, não suportava que ele escapasse o mínimo que fosse do seu domínio. Eram sempre as mesmas cores de roupa, sempre o mesmo trajeto de carro, sempre os mesmos amigos, sempre tudo de sempre.

Ele já estava cansado de tudo aquilo, eram 10 anos de uma vida conjugal sem amor. De fato, Rotina e Amor não combinam. De segunda à sábado era o trabalho e no domingo era dormir até tarde, assistir o futebol e dormir novamente. A Rotina sempre foi controladora: “É isso e ponto final!”.

Se Maurício ao menos soubesse por que disse o fatídico ‘Sim’, se soubesse como poderia se divorciar dela… Mas ele já estava tão acostumado com a sua Rotina que morria de medo de já não conseguir mais se virar sem ela. Já fazia algum tempo, porém, que, enquanto ela roncava do seu lado toda noite, ele maquinava planos de livrar-se da indesejável esposa de uma vez por todas.

E foi numa típica tarde de quarta-feira que a sorte sorriu para Maurício, dando-lhe a oportunidade que ele tanto esperava. Enquanto via o mundo lá fora passar como uma miragem diante de seus olhos, restritos pelos limites de sua janela de escritório, uma notícia chega de repente: “O prédio está com problemas na parte elétrica e há risco de curto-circuito, todos temos que sair imediatamente.”

Ainda faltavam 2 horas para o final do expediente. “Serão duas horas só minhas! Duas horas que ficarei longe dela!”. Aquele poderia ser o princípio da liberdade com a qual Maurício sonhava há tempos. Ele iria sentir novamente o sabor doce de sua adolescência. Aquele imprevisto foi para ele como a aula vaga na escola, em que ele podia sair com os amigos para fazer o que quisesse. E enquanto guardava seus pertences na mochila, preparando-se para a sua nova e incrível vida, Maurício lembrou-se do refrão de uma música que costumava cantar com os amigos naquela época: “Quando você perceber já vai ser tarde demais/ Esqueça os seu problemas, faça o que te satisfaz!*.

E rumo ao seu primeiro rompimento com a Rotina depois de anos submissão, Maurício levando ainda consigo alguns dos hábitos de tantos anos, apertou o botão do elevador e quando este chegou, ele entrou por suas portas animado: “São as portas do mundo se abrindo pra mim!”. Mas quando estas se fecharam, Maurício se deu conta que aquele sorriso da sorte foi na verdade um sorriso irônico e que a música que cantava com os amigos de escola se tornara para ele uma profecia. Era tarde demais.

Em poucos segundos o elevador foi parar do 8º andar na garagem do prédio. O barulho foi tremendo e assustou a todos. Alguns minutos depois lá estavam os bombeiros arrombando a porta do elevador e executando o complicado resgate da vítima fatal. Foi um choque para todos os seus companheiros de repartição e especialmente para sua esposa Rotina, que ainda esperava vê-lo trabalhando muitos anos e depois aposentado, vivendo de remédios e da boa vontade dos filhos que ainda teriam.

E assim saiu em uma pequena nota de um jornal sem importância na manhã seguinte:
Falha elétrica em prédio antigo no centro da cidade ocasiona curto-circuito e elevador cai deixando um morto. Maurício Oliveira tinha 31 anos e há 10 anos trabalhava no local. Pessoas que também trabalhavam no edifício afirmaram que o ocorrido foi devido a falta de uma manutenção de rotina.

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* Esses trechos fazem parte da música ‘Rotina’, escrita pelo músico (e meu amigo) Gabriel Ariêh, música que muito me inspirou na composição desta crônica.

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Papel, Caneta e Palavra – Capítulo I

Nota: Para ‘ ***** ’ , leia-se qualquer nome masculino com cinco letras, sendo três consoantes e duas vogais. Os meus preferidos são André, Pedro, Bruno e Lucas, mas fique à vontade. Boa Leitura.

Se tivesse um jeito fácil de dizer ‘eu te amo’ a quem amamos, mesmo sabendo que a pessoa em questão não nos corresponde, não existiriam poemas de amor.
Os apaixonados só se debruçam sobre seus cadernos para escrever sobre o amor porque não podem estar debruçados sobre o colo da pessoa amada.

Aos que amam e não são amados, sobra o consolo do papel amigo, que estará sempre lá para receber suas súplicas surdas e a sua mágoa que parecem não ter fim.
Tudo o que você sente e não pode dizer de outra forma, está à disposição do poema, esse agrupamento de versos que vai aos poucos construindo um abrigo solidário para você se refugiar da solidão.
E os versos são esse pulsar desesperado, acelerado, de quem sente o mundo na garganta mas sabe que não pode dar voz a ele a não ser pela palavra escrita.

A caneta precisa estar sempre lá, lembre-se de carregá-la para onde for. A caneta é a porta-voz do grito que você é impedido de dar. É ela quem fará a mística conexão entre a palavra e o papel. E são os três, o papel, a caneta e a palavra, a santíssima trindade daquele que ama sozinho.

Os versos que ***** começou a escrever hoje foram mais sofridos do que os de um mês atrás, quando sua alma o fez saber que ele a amava. Isso porque há duas semanas sua consciência o fez saber que não era e nem seria amado pela menina do sorriso bonito.

O primeiro poema era sobre como ela é incrível, era todo sobre ela, ou talvez um pouco sobre os dois. Porque depois de passar semanas escrevendo o nome dela em todas as superfícies possíveis, ele acabou por descobrir uma graciosa coincidência que resolveu usar nos versos de abertura:

Querida, os nossos nomes
Cinco letras têm
Ambos com três consoantes
E duas vogais também

Tão belo quanto seus lábios
É o sorriso que eles contêm

blá blá blá

O poema de hoje, porém, tinha uma cor acinzentada e começava neste tom:

É triste amar quem não nos pode amar de volta
Porque já entregou a outro o coração;
Amar assim, é um grito mudo e sem resposta
É só melancolia, é só dor, é só solidão.

Se não fosse a poesia,  ***** estaria perdido. Todos os apaixonados também estariam.
Sem a segurança do verso e desse castelo de papel que ele nos ajuda a construir na hora da tempestade, o que seria de nós? É certo que o papel é frágil, assim como é frágil o coração de quem ama e também é certo que se destrói facilmente já com as primeiras gotas de chuva, mas já é um conforto saber que não estamos sós em meio a ela. Dos nossos olhos escorrem as lágrimas sofridas, da folha escorre a tinta preta da caneta amiga.

Papel, caneta e palavra, tríade sagrada, abrigo que não se pode encontrar no peito da pessoa amada.

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Na poeira do sebo da Rua 5 de Março

sebo

Como não seria perfeito um romance que começasse em uma livraria?!

Lá estaria você, vendo o quê de literatura inglesa havia naquela seção que realmente estava escrito em inglês. Quase nada, como sempre. Muitas adaptações e poucos originais. Não são assim também as pessoas? Quantas são o que essencialmente gostariam de ser e quantas se adaptam para que possam se sentir parte de algo?! Não são realmente as pessoas como os livros? Mas deixemos de comparações e voltemos ao romance, ou antes, aos romances, o da Jane Austen, o que ele procura ou que surgirá entre vocês dois.

Enquanto você estaria procurando por “Sense and Sensibility” , lá estaria ele, com cara de leitor, lindo e charmoso, procurando por algo novo, algum bom livro para ler durante a viagem para Cabo Frio com os pais no próximo fim de semana. Você não conseguiria alcançar a prateleira desejada e então ele, cavalheiro, alto e encantador, pegaria o livro para você. E fazendo valer o famoso jargão do profeta, em retribuição a esta gentileza, você o ajudaria com a escolha de um romance. Sendo ele da Engenharia e você de Letras, a sua sugestão seria mais do que aceita. E estaria aí iniciado um perfeito romance entre vocês.

Perfeito? Talvez não… Talvez seja apenas mais um cliché. A menina de humanas, o rapaz de exatas; ela baixinha e procurando por livros de mocinha e ele fazendo hora dentro da loja. Porque meses depois você descobriria que a história da procura de um livro para ler durante viagem fora pura invenção (talvez a própria viagem também tenha sido). Ele não costuma ler muito, menos ainda no carro.

Não são realmente as pessoas como os livros? Tantas capas bonitas mas com conteúdo bem menos interessantes, enchendo as prateleiras de uma moderna e badalada livraria como esta, enquanto há tanta coisa realmente boa perdida em sebos amofinados!Seria melhor mudar o cenário.

Um romance começado em uma livraria poderia ser sim muito imperfeito, com tanta gente que hoje frequenta livrarias por motivos tão semanticamente distantes da palavra L I V R A R I A. Até porque livraria, em conceito contemporâneo, passou a ser uma loja que vende celulares, computadores, cds, jogos, quadros, brinquedos e possivelmente algum livro. Sendo assim, você poderia acabar topando mesmo com alguém que nem gosta de ler e que talvez nem seja estudante de nada e que foi lá só para comprar um jogo qualquer de videogame ou ainda um Cd da Cláudia Leitte.

Então vamos mudar mudar logo esse cenário. O que se escreveu até aqui não presta. Vamos começar de novo.

Como não seria perfeito um romance que começasse num sebo?! No sebo sim! Seria perfeito! Quem vai ao sebo procura antes qualidade à novidade. Não há nada de novo debaixo do céu, não há nada de novo nas prateleiras de um sebo. Muitos vão ao sebo crendo que só lá encontrarão algo raro, quase extinto ou que já não se publica e que só vão conseguir ter acesso caso alguém, acometido de qualquer coisa que envolva loucura, um dia tenha se desfeito de uma preciosidade.

Não são realmente as pessoas como os livros? Algumas vivem anos com alguém que, em certo momento, não lhes deu o devido valor e as descartou. Então passam a viver na poeira do sebo da Rua 5 de Março até serem encontradas por alguém que por longo tempo procurou por elas, e que há de quere-las com toda vontade, mesmo sabendo que o passado lhes deixou infinitas manchas e rasuras. Há de cuidar para não causar mais marcas.

Um romance que começasse em um sebo teria mais chance de envolver duas pessoas de humanas e talvez nenhuma delas fosse linda. E talvez teriam praticamente a mesma altura. E talvez os dois gostassem de Agatha Christie. Ele teria um cabelo grande e bagunçado e barba por fazer e não precisaria das suas dicas de literatura. Seria mais uma troca de figurinhas.

Mas, talvez, ‘romance perfeito’ seja uma hipérbole da minha parte, porque se as pessoas realmente são como os livros, logo não são perfeitas. Ainda quando lemos os clássicos, inquietos como somos, não conseguimos achá-los perfeitos (conheço muita gente que gostaria de poder ter dado algumas dicas ao Charles Dickens).

Os romances nunca são perfeitos porque as pessoas também não são. E na verdade não importa muito se o dito romance começou numa livraria, num sebo ou numa biblioteca.
Aaaah! Mas como não seria perfeito um romance que começasse em uma biblioteca?!

O que se escreveu até aqui não presta. Vamos começar de novo.

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Memórias em um guardanapo de bar (conto)

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Há sempre que se ter uma caneta à mão. Caso não haja papel, existem muitas outras superfícies que lhe substituem. Não que tivesse faltado papel na tarde de há pouco (ela estava sempre com seus mil cadernos), mas sabe-se lá ao certo porque razão, ela resolveu escrever no antebraço dele o seguinte pedido: Não me esqueça. Ele nem sequer tentou fazê-lo.

Olhava ainda agora para o braço onde a delicada caligrafia daquela a quem ele amava tornara-se já um borrão quase indecifrável. Ainda assim ele não haveria de esquece-la. Foram horas vagando pela orla da praia sem saber ao certo aonde ir e o que fazer. A chuva rompeu o plácido céu mas ele não fugiu dela. Sentou-se e pôs-se a contemplar o mar. Seu pensamento ia e vinha como as inquietas ondas. O que vagava pelas ruas era só um corpo vazio, sua alma era dela e com ela havia ficado.

O que é uma lembrança? Para que ela serve? Não havia força no mundo capaz de lhe trazer conforto frente a essas perguntas, porque tudo o que ele tinha era uma lembrança estéril. Foi então que pensou em escrever. “Isso sempre ajuda!”, dizia ela. Entrou no primeiro bar que avistou, não se pode precisar o que bebeu e nem se bebeu. Só se sabe que escreveu e que três folhas de guardanapo foram o suficiente. Olhou novamente para o braço como poeta que evoca sua musa, mas depois da densa chuva havia apenas escassos resquícios da tinta preta.

Suas mãos tremiam, seus olhos enchiam-se de lágrimas. “Não a verei novamente.”. Acredita-se que foi esta a primeira frase que escreveu, mas há quem diga que foi “Não a terei novamente.” Agora não é hora de se discutir caligrafia, até porque ambas as coisas eram verdade. E chorou. Ele esperou por aquele momento durante todo o inverno, mas foi com a chegada da primavera que ela, que inclusive tinha nome de flor, desabrochou em seu regaço.

Um romance que começou em meio aos livros não poderia ter desfecho melhor do que em uma biblioteca vazia. E assim foi. Os pormenores do encontro amoroso ocuparam quase duas daquelas improvisadas páginas e seria indiscrição reproduzi-los aqui.

“Escrever para não esquecer.” Foi uma das coisas que ele aprendeu com ela. Sempre que estavam juntos falavam de livros e poetas, e quando ela declamava algum poema que sabia de cor seu êxtase era completo! Como aqueles versos a deixavam ainda mais bonita! Mas lembrar disso tudo agora, de que lhe adiantava?

O primeiro dia que se viram não há de voltar, assim como a tarde de horas atrás já não existe. O passado é sempre ausência, é sempre extinção… Era tudo tão vivo e ao mesmo tempo tão embaçado…Às vezes ele sentia como se ele pudesse novamente acariciar seus cabelos e beijar sua nuca, mas não podia. Uma lembrança, afinal, o que é? Para que serve?

Thaís Bartolomeu